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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

Red Tales

>> Cuidemos de Todos Cuidando de Nós <<

 

Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

LATE NIGHT SECRETS

Janeiro 30, 2003

Li, há uns dias, a alguém que escrevia num comentário de um blog, que Fernando Pessoa está fora de moda.


 


A P O N T A M E N T O
Álvaro de Campos



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.


Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.



Fiz barulho na queda como um faso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.


Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?


Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.


Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.


Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

...

Janeiro 19, 2003

um banco de jardim


não é mais que um banco de jardim


 


mas existe a madeira de que é feito


assim como existe a lua, o sol e a Ria de Aveiro


 


o mundo fora da gaveta


onde escondemos as crónicas de sempre


desperdício genético

Janeiro 11, 2003

 


vida toupeira, desperdício genético,


na cegueira colectiva faço apenas o que me obrigam


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


catacumbas espirais, túneis em chamas


que não chegam nem levam a parte alguma do céu


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


estou no lado errado da lua,


numa sala fechada pela orgulhosa ignorância


de um gorila que navega à deriva


protegendo-se das tempestades de merda


que ele próprio inventa


com a máscara do conforto


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


pouco
interessa


 


tão pouco é o ar que
respiramos


 


nada que me
interesse


 


estou rodeado de orgulhosos poços de
saber,


profundos abismos oceânicos povoados
de conhecimento,


formas de vida desprovidas de vazio,
tudo as preenche


na totalidade
e,


imagine-se,


basta-lhes uma moeda


para responderem a todas as necessidades alheias


 


até eu, cápsula de cianeto, posso mergulhar


e afogar-me nesse mar de erudição sem perigar


qualquer outra espécie viva ou já
morta


 


mas faço apenas o que me obrigam


no último sopro da toupeira


mascarada pelo conforto


 


que escasso


é o ar que respiro nestes túneis

janeiro 2003

Janeiro 01, 2003



 

 


vida toupeira, desperdício genético,


na cegueira colectiva faço apenas o que me obrigam


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


catacumbas espirais, túneis em chamas


que não chegam nem levam a parte alguma do céu


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


estou no lado errado da lua,


numa sala fechada pela orgulhosa ignorância


de um gorila que navega à deriva


protegendo-se das tempestades de merda


que ele próprio inventa


com a máscara do conforto


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


pouco interessa


 


tão pouco é o ar que respiramos


 


nada que me interesse


 


estou rodeado de orgulhosos poços de saber,


profundos abismos oceânicos povoados de conhecimento,


formas de vida desprovidas de vazio, tudo as preenche


na totalidade e,


imagine-se,


basta-lhes uma moeda


para responderem a todas as necessidades alheias


 


até eu, cápsula de cianeto, posso mergulhar


e afogar-me nesse mar de erudição sem perigar


qualquer outra espécie viva ou já morta


 


mas faço apenas o que me obrigam


no último sopro da toupeira


mascarada pelo conforto


 


que escasso


é o ar que respiro nestes túneis


 



11-1


 




 


um banco de jardim


não é mais que um banco de jardim


 


mas existe a madeira de que é feito


assim como existe a lua, o sol e a Ria de Aveiro


 


o mundo fora da gaveta


onde escondemos as crónicas de sempre



 19-1


 



sempre sonhei


não escrever este poema


 


mas


 


há uma faca e um vaso vazio de mim no lugar que reservava aos livros


 


cansei-me


 


das palavras e


d      os espaços


 


preenchidos


por ti


 


acabaram


os poemas de amor


se os houve


acabaram os poemas


do erotismo


que


 


inventávamos


existir


nos bancos de jardim


 


onde nascemos gravei a nossa morte em letras fundas


e nada mais.



18-1

 


por todo o mundo


existem as praias


e as ondas


que as alimentam,


porque o mar,


outrora mudo,


precisou de inventar


as mais belas metáforas


para dizer que te ama


 


por todo o mundo


existem os poetas


e as palavras


que alimentam,


porque o homem,


outrora mudo,


precisou de inventar


as mais belas metáforas


para dizer que te ama


 


por todo o mundo


existes tu


e os sonhos


que alimentas,


porque deus,


vendo-me mudo,


precisou de inventar


uma forma secreta


de fazer-me sonhar.


 


17-1


 

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