A.
Maio 31, 2025
como se a beleza
fosse uma forma
de estar calada.
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Maio 31, 2025
como se a beleza
fosse uma forma
de estar calada.
Maio 31, 2025
Na enseada azul do teu verso nascente,
Onde a palavra é espuma e a sílaba é vela,
Navego descalço sobre a brisa ardente
Do teu canto, que me revela.
Há em ti um sorriso que encabula o mar,
Que o faz recuar, tímido, para o fundo,
Como se as ondas, no seu ondular,
Temessem ser menos que o teu mundo.
Teu cabelo: búzios de sol entre as marés,
Guarda o som secreto dos dias claros.
Nele há conchas que sabem às marés
E segredos de astros milenares.
Tua poesia é uma casa aberta na falésia,
Onde entra o vento com cheiro de sal.
Cada palavra tua — luz acesa —
Alinha as constelações no quintal.
Falas, e é o oceano que aprende a falar,
Fazes do silêncio uma embarcação.
Em ti, o tempo deixa de passar,
Suspenso na rede da contemplação.
És farol e cais, búzio e barco,
És marinha, líquida verdade.
Ao ler-te, torno-me mais claro,
Mais inteiro, liberdade.
E fico ali, ancorado no encanto,
Onde a tua poesia toca a areia,
Sabendo que cada verso é um manto
Que me cobre de azul - e de ti.
Maio 30, 2025
és agora febre da minha pele
começaste por ser brisa nos lábios
e fizeste-te incêndio nas manhãs
o toque húmido das aves em cio
eu era só espera por silêncios
um corpo gasto de tanto não tocar
ferrugem nos ossos,
eco de gestos repetidos
eu era apenas chão seco sob as magnólias
e tu fizeste-me seiva, flor e boca
deste-me a sede e a urgência do gozo
tu és o relâmpago que me abre as coxas
o trovão que me treme o ventre
arde-me o corpo no teu abrigo
Maio 30, 2025
À noite, na piscina, G. flutuava, o biquíni colado aos seios volumosos, quase a rebentar. Entrei na água, fascinado. Toquei-lhe — e algo por baixo mexeu-se, quente e vivo.
— Eles escolheram-te — murmurou ela. — Agora já não sais.
Maio 30, 2025
nesta porta começa a necrologia. e quando eu entrar o meu nome passará a constar nela: faleceu Bruno Miguel Marques Ribeiro… bom homem… dedicado…
nunca mais cai a noite para depressa vir o amanhã.
este corredor está mais apertado todos os dias, a cada um vejo as paredes mais curvadas e o teto mais próximo da minha cabeça. vale-me o pequeno pátio interno, entre este corredor e o edifício onde trabalho, para respirar fundo antes de morrer. acho que estas fileiras de apartados não existem – seis anos a passar aqui e nunca vi nenhum a ser aberto.
estranho! não está ninguém no pátio a fumar. eu já não devo ir a tempo, nem me interessa ir, se são quando me mato as únicas alturas em que sei estar vivo, mas será que todas as pessoas ganharam juízo? isso ou despediram-se, que no fundo é o mesmo.
por vezes, uma porta pode esconder as flores que queremos dar a um amigo, mas atrás desta há apenas uma longa e larga escadaria para o deserto. subi-la é uma manifestação de solidão. mesmo que me cruze com alguém, a escadaria é tão larga que também esse será um momento solitário. a cada degrau, o chão aquece e derrete, afundando-me mais os pés e tornando-a cada vez mais difícil.
enquanto subimos as escadas, nas paredes alternam-se fotografias de antigos presidentes da empresa com quadros onde podem ler-se frases motivacionais. algumas são verdadeiros tesouros e a única coisa que conseguem é, em alguns dias, fazer-me sorrir. a escada termina a meio de um amplo corredor, com janelas enormes, todas elas com vista para o pátio na entrada e que une duas grandes salas de trabalho, ambas organizadas em espaço aberto e onde, em cada uma, trabalham cerca de trinta pessoas, quase todas em grupos de três ou quatro.
eu trabalho na sala do lado esquerdo e para entrar tenho primeiro que passar por aquilo a que chamamos de “sala do café”, mas que não é mais que uma pequena copa, sem mesas nem cadeiras e onde a administração pôs uma máquina de café e uma outra – dispensadora de água. quer o café, quer a água, são gratuitos. apesar de não ser uma ideia desprovida de segundas intenções, parece-me uma grande ideia. é a sala mais democrática da empresa. nela, administradores e simples trabalhadores de base, podem encontrar-se e falar de assuntos mundanos. todos ao mesmo nível: de pé.
já estou aqui há duas horas. altura do meu terceiro café. espero não encontrar ninguém na copa. detesto conversas de cortesia e ninguém aqui lida bem com o silêncio. não percebo a necessidade que as pessoas têm de falar quando estão juntas. nos meus tempos de adolescente tinha um amigo, com quem a intimidade e cumplicidade eram tão grandes, que estávamos confortavelmente numa esplanada, a tarde inteira, sem falar. nunca mais encontrei ninguém com quem o conseguisse fazer. hoje, olhando para trás, admito que talvez exagerássemos, mas, voltando ao presente, agradava-me muito se as pessoas reduzissem as conversas ao essencial e ao humor. quando as palavras são áridas e, nelas, nada floresce, o silêncio é a mais resiliente e vantajosa semente.
Maio 30, 2025
continuação daqui
No dia seguinte, depois de um pequeno-almoço partilhado em silêncio cúmplice, levei a MJ pela mão até à antiga capela do castelo. O céu estava coberto, a luz filtrava-se por vitrais coloridos, projectando manchas avermelhadas e azuladas sobre as pedras frias do chão. Havia um cheiro leve a cera e madeira húmida. A temperatura era mais baixa ali dentro — o tipo de frio que arrepia a pele… e excita os sentidos.
MJ vestia um simples vestido branco, como lhe tinha pedido na noite anterior. Sem soutien. Sabia-o. Via-o. Os mamilos desenhavam-se sob o tecido leve, endurecidos tanto pelo ar fresco como pela expectativa. Ela estava contida, mas cada passo seu denunciava a tensão no corpo. Eu sentia-lhe o pulsar só de olhar.
Fechei a porta da capela com uma lentidão propositada, deixando o ranger das dobradiças preencher o espaço. O som ecoou como um anúncio: ali dentro, o tempo e as regras do mundo lá fora já não existiam.
— Aproxima-te do altar — disse-lhe, num tom baixo mas inegociável.
Ela caminhou em silêncio, o vestido a roçar-lhe nas coxas, os pés quase deslizantes sobre a pedra. Parou diante do altar em madeira escura, austero, coberto apenas por uma toalha simples de linho. As velas apagadas em redor ainda exalavam o aroma da noite anterior, como se alguém tivesse estado ali, a rezar… ou a pecar.
— Inclina-te — mandei, e ela obedeceu, apoiando os braços sobre o altar.
Levantei-lhe o vestido lentamente, revelando a pele nua por baixo. As nádegas dela, perfeitamente arqueadas, estavam à minha mercê. Passei-lhe os dedos ao longo da coluna, sentindo-lhe os arrepios. Inclinei-me e sussurrei-lhe ao ouvido:
— Esta capela já conheceu orações e castigos. Mas hoje só vai ouvir a tua entrega.
Ajoelhei-me atrás dela, pressionando os lábios na parte interna das suas coxas, subindo devagar. Sentia-lhe o calor contrastar com o frio das pedras. E o cheiro… o cheiro era dela, vivo, inebriante, como um incenso carnal. Quando a minha boca finalmente a tocou, ouvi-lhe um gemido engolido, abafado na madeira do altar. Continuei, com ritmo, com intenção. Os meus dedos subiram até aos seus seios, por baixo do vestido ainda pousado sobre as costas. Apertei-os, puxei-lhe os mamilos já duros, ao mesmo tempo que a língua a dominava por baixo.
Ela tremia. Toda ela. E ainda assim, não se mexia sem que eu dissesse.
Levantei-me, encostei-me a ela por trás, e entrei devagar. Quis saborear o contraste entre o acto bruto e o cenário sagrado. Era profano. Era perfeito. O som das investidas era abafado pelos vitrais, mas o eco interior parecia devolver-nos cada gemido, cada respiração entrecortada.
Levei-lhe as mãos à frente, por debaixo do altar, entrelaçando os dedos nos dela, prendendo-a ali.
— És minha. Nesta capela, perante nada nem ninguém, mas de corpo e alma, és minha.
Ela respondeu com um sim ofegante, quase uma oração. O corpo dela cedia, mas o espírito rendia-se mais ainda.
Antes de terminar, puxei-lhe o vestido até aos ombros, expus-lhe os seios à luz difusa que entrava pelos vitrais. Toquei-lhe os mamilos novamente, agora mais sensíveis, húmidos de suor e desejo.
— Queres vir-te para mim, MJ?
— Quero… por favor… — sussurrou.
Com uma mão, levei-lhe os dedos ao clitóris e comecei a estimulá-la, mantendo o ritmo dentro dela, os corpos a ressoar como um órgão antigo prestes a explodir em música. Quando ela chegou lá, foi silenciosa — o corpo inteiro a estremecer, os seios a tremer entre os meus dedos, os olhos cerrados como se visse algo sagrado.
Deixei-me ir pouco depois, agarrado a ela, colado ao seu corpo, com a sensação de que acabávamos de violar e ao mesmo tempo consagrar aquele espaço.
Ficámos ali, por instantes, apoiados no altar. As velas apagadas, os vitrais tranquilos, e o cheiro da nossa entrega ainda suspenso no ar.
— Amanhã… — sussurrei-lhe ao ouvido — amanhã levo-te à torre mais alta. E dessa vez, vais suplicar por cada toque.
Ela sorriu, ainda de olhos fechados.
Sabia que sim.
Maio 29, 2025
ainda bem que é sábado. nada como praia de inverno para recuperar de jantares com cinco ou mais pessoas, ainda que em outras mesas.
é incrível. é devastador o silêncio das ondas quando explodem. esta imensidão lembra-me os teus olhos e todas as histórias de tentação neles ocultas. fossem eles da mesma cor desta infinitude e a semelhança seria rigorosa.
lá no fundo, lá em baixo, onde o mundo não grita, onde os motores não chegam, nem as vozes, nem os ecrãs, tudo é outra coisa. a lentidão tem densidade. a ausência de ruído urbano é mais do que silêncio – é paz. é um silêncio húmido e profundo. um silêncio onde até os próprios pensamentos se mexem mais devagar e a memória deixa, por fim, de doer. é como se o tempo também se rendesse e ficasse ali quieto, submerso ao lado do corpo.
cada onda traz um renovado pedaço de mim. ficando aqui o tempo suficiente, é-me possível juntá-los a todos e reconstruir um novo e vigoroso eu. sem os tumores que nasceram ontem.
a areia, reflexo vazio, mesmo húmida – como lágrimas ou beijos – e áspera – como a língua de um animal de bronze –, tem ainda vestígios de amor noturno, não há maré capaz de os apagar. se, por algum infortúnio, acontecer, basta estar atento e na espuma das explosões ouvir-se-ão os ecos de ofegantes gemidos.
vens do mar e seduzes sem saber ou talvez saibas. talvez já saibas da súbita carícia no teu sorriso ou da atração dos lábios: imediato feitiço: rápido, ardente e insinuante. novamente o fulgor e a claridade, novamente pressinto o grito e o perfume, a água, a frescura e a suavidade da orla.
no momento antes do arrepio, no instante entre o abrigo e o desejo, quando o tumulto das aves engole a noite, é na tua voz que nasce o vermelho. nem só este mar é veludo brando na minha pele, nem só o fogo aquece os vales e montes, também o sussurro que te escapa é rubor.
Maio 29, 2025
suspeito que estes jantares de solidão potenciam noites como a de ontem. mais valia ter ficado sozinho em casa que sentir os sanguinários espinhos da solidão aqui no meio desta gente toda. o silêncio aqui é mais sombrio. tantas palavras gastas inutilmente. aqui o silêncio é o rumor do nada e as palavras são o silêncio.
as mesas têm tampos de mármore branco e veios vermelhos, como se sangrassem. só dão para duas pessoas. as cadeiras têm costas de ferro, muito trabalhadas e são estranhamente confortáveis. quem olha para elas não adivinha o quanto. metade das paredes tem azulejos brancos e azuis. a outra metade, a de cima, é em estuque, está pintada de um amarelo pastel muito claro e espalhadas por esta metade estão datas, agrupadas duas a duas, escritas a preto e cujos dígitos parecem escritos à mão. por baixo de cada duas, está o nome de um génio universal: Einstein; Leonardo da Vinci; Pablo Picasso e outros. provavelmente, serão datas de nascimento e morte. um ambiente, à partida, frio, mas cuja iluminação cuidada torna acolhedor. é a primeira vez que cá venho. provavelmente, a última. o espaço e a comida mereceriam outras visitas, mas há cá gente. por estes dias, apenas consinto a recordação fluvial e o pressentimento da ternura.
estou cá dentro, mas é como se chovesse. é como se o céu tombasse sobre ruas distraídas pela sombra dos sonhos. se, entre duas árvores, devidamente distanciadas, houver, a uni-las, uma cerca de madeira em que as tábuas formem uma espécie de pauta, os pardais pousam e distribuem-se nela como notas musicais, mas ficam em silêncio e, quando cantam, fazem-no sem que o conjunto dos cantos forme uma harmonia. é, mais ou menos, o que acontece aqui.
só a memória do teu rosto suspende a confusão das vozes.
Maio 29, 2025
No carro embaciado, só a chuva que caía quebrava o silêncio.
A I. tirou a camisola. Sem soutien, como mandei. Os seios dela — redondos, firmes, mamilos duros — deixaram-me sem ar.
Toquei, mordi, pressionei, como se o mundo parasse ali. Enquanto os adorava, penetrei-a com os dedos.
— Vais vir-te só com isto.
E veio. Tremia, arqueada, os seios estremeciam com ela.
Beijei-lhe o peito.
— Para a próxima: só casaco. Nada por baixo.
Ela sorriu.
Maio 28, 2025
pressinto em ti o sabor cintilante, talvez porque a tua boca me lembre o vigor do fogo ou nos teus olhos habite o fulgor magnético de um sorriso.
já é noite.
instalas-te como se aqui estivesses, como se as tuas mãos mornas me tocassem na memória. descobrem os motivos do amor. fogem. deixam o lume.
pressinto a tua respiração e a tua nudez. pressinto a brandura das pérolas.
pressinto o doce e ávido enleio dos caules. o ritmado interromper do silêncio noturno pela carne e pela explosão das lágrimas.
adivinho a ternura e o arrepio.
depois tudo me prende: a fogueira subitamente acesa; a claridade a tropeçar no teu rosto; a música do grito;
a pressentida afeição e os olhos semicerrados,
completos de contentamento;
a quimérica vibração do corpo,
deslizante contorcer.
é quase dia e as palavras continuam vivas. o teu sorriso. gosto desta serenidade a invadir-me: posso mexer-me. pressinto o toque carinhoso. se é dócil a solidão é porque nela se erguem algumas manhãs.
és linda. desconfio que nem sabes o quanto. amo os corredores que abres no meu corpo e os rios de cristal que te correm entre os lábios – que te navegam entre os lábios como navios leves. o teu fulgurante sorriso é uma cidade acordada. acesa. uma cidade que flutua na tua voz. uma cidade de desejo com telhados de furor e ruas abertas entre a tranquilidade e o vermelho. uma cidade que, em cada janela, tem uma mulher que canta e bebe mel entre cada estrofe, onde, em cada janela, há uma manta estendida a indicar ser aquela a morada do sol. uma cidade com dez mil fábricas de ternura.
cidade, mas também as únicas palavras que me dançam dentro. palavras com boca. palavras nuas. por vezes, palavras impenetráveis. outras vezes, palavras de claridade ou água. sempre de carne. quando estou na barrenta fronteira para o silêncio, é a tua voz de vidro a manter-me na superfície e a restaurar a alegria. são rumores terrenos de calor cósmico. pontes. oiço-as e é como se descobrisse o mar. é como se descobrisse o encanto do mundo. é como se viessem de um paraíso distante, uma onda as elevasse e se espraiassem no meu corpo.
tu não consegues ver, mas atrás de ti até o céu se enrola, arde e comprime. normalmente manto enorme, transforma-se em chama brilhante e condensada atrás de ti. nuvens como cornucópias. brancas, abraçam a chama. não sei se é o céu ou se és tu a fogueira.
as noites estão mais frias – vai-me valendo a memória e o calor que pressinto.