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Agosto 24, 2025
nada me arde mais que os teus lábios
quando atravessam o silêncio
como uma lâmina húmida de fogo
é aí que o corpo se abre em claridade
é aí que a noite aprende a sangrar
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Agosto 24, 2025
nada me arde mais que os teus lábios
quando atravessam o silêncio
como uma lâmina húmida de fogo
é aí que o corpo se abre em claridade
é aí que a noite aprende a sangrar
Agosto 16, 2025
não há salvação
mas há este instante
em que o sangue se torna palavra
e a palavra,
uma ferida que respira
Agosto 15, 2025
eu via-a. a Asa. desenhada no ar, uma asa, mas de carne. a pele, um campo onde tudo podia nascer e nascia. ela tirou a blusa. eu não olhava os volumosos seios. não.
olhava o ventre. o ventre que se abria. não em cicatriz, mas em lábios. lábios húmidos e finos que se desenhavam de cada vez que respirava.
eu estendi a mão. quis tocar. eles, os lábios, abriram-se mais. falaram-me. sussurravam o meu nome.
Asa. Eu.
a mão tremia. toquei-a. e a minha mão afundou-se. a minha mão, os dedos, o pulso, afundaram-se naquele orifício que era ventre.
havia sangue. havia suor. e o meu nome. o meu nome que era agora uma semente plantada lá dentro. e eu a crescer em Asa. a desabrochar. a rasgar-lhe o corpo em flores de carne.
Agosto 13, 2025
não há rima no suor.
não há métrica no gemido.
há carne.
há urgência.
e um silêncio depois,
que também não se escreve.
Agosto 13, 2025
ensina-me o abismo simples:
o teu riso encostado ao meu dente,
a tua respiração a medir os quartos,
um lençol revolto – cartografia bruta
Agosto 13, 2025
há um certo prazer em ver uma instrução cumprida.
é a sensação de que o mundo, por um momento, fez sentido.
alguém ouviu. entendeu. fez.
sem atalhos, sem desculpas, sem o “depois vejo” que nunca chega.
há um gosto nisso, como alinhar um quadro torto ou fechar uma porta que batia.
uma paz breve mas inteira.
cumprir uma instrução é mais do que executar - é reconhecer o valor da palavra dada,
é provar que o compromisso não ficou perdido no ar.
e não importa se é algo pequeno.
porque, nesse instante, não há dúvida nem espera:
o que foi dito, foi feito.
e isso, para quem sabe o peso das promessas quebradas, é quase luxo.
e é físico.
Agosto 12, 2025
carne, mais que poesia é o que me deixas na boca quando partes - um sabor a sal, a febre, a um sangue que nunca se escreve.
a tua pele, alfabeto que leio com a língua, não cabe em nenhum poema. há gemidos que não rimam, há espasmos que não se declamam.
o desejo não quer metáforas. quer o suor entre os lençóis, o som da tua respiração a falhar, a curva do teu ventre onde a minha fome se deita.
há noites em que te invento com os dedos, como quem escreve um corpo num papel húmido de ausência.
e quando a poesia tenta fingir que basta, o meu corpo ri - porque sabe que só a carne é verdadeira.
Agosto 11, 2025
há poucas coisas que me irritem tanto.
uma promessa que nasce morta.
se é para não fazer, não digas que vais fazer.
gesto vazio. cruel.
veste de esperança algo que nunca vai sair do papel.
a esperança é frágil.
quando se solta a palavra, cria-se um pacto invisível.
quebrando-o, não partes só o acordo.
partes a confiança.
dizer só para ficar bem.
para evitar o silêncio. para ganhar um sorriso rápido.
é dar um presente embrulhado com nada lá dentro.
papel bonito. vazio a ecoar por dentro.
promessas não são moedas para comprar momentos.
são compromissos.
e, quando não se cumprem, deixam um gosto amargo.
um gosto que não se esquece.
prefiro o silêncio honesto à palavra fácil que nunca se cumpre.
Agosto 10, 2025
há domingos em que o tempo parece escorrer devagar demais, como se cada segundo se alongasse para um infinito sem graça e sem cor. os minutos passam e a casa fica demasiado silenciosa para não se ouvir o vazio a crescer no peito. as horas escorrem pelas paredes e a mente vagueia à procura de algo que acabe com aquela sensação pesada de nada por fazer. as rotinas repetem-se e tudo parece igual. até o relógio perde o ritmo e o tédio instala-se como um visitante insistente que se recusa a partir, sem convites nem despedidas. nesses dias, o silêncio não é paz, mas um eco incansável da solidão que se arrasta sem pressa, até a noite chegar e levar consigo mais um domingo perdido entre suspiros e esperas.
e sem ela tudo é mais lento.
Agosto 07, 2025