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Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

...

Março 18, 2015

in «AVC do Amor»


 


I


 


Não sei porquê, mas desconfio que este texto não vai longe e que nunca vai ver a luz do dia. Acho que só o meu suicídio lhe pode valer e não me vou matar para lhe dar sucesso. Outras coisas até o merecem, mas isto não. Por exemplo, morrer de amor. Já não se usa, mas o amor justifica um belo suicídio. De qualquer forma, vou escrevendo. Se eu não acabar, depois não digam que não avisei.


 



A minha vida é uma sequência de acontecimentos que, na maioria dos casos, são imaginados e nunca aconteceram. Vou, por isso, tentar juntar alguns de maneira que faça sentido.


Não recordo parte da minha história (das poucas coisas que é mesmo minha e que nunca roubarão). Não faz mal: fico com a hipótese de recomeçar muitas coisas. Faz confusão não recordar alguns episódios e lembrar outros tão bem. Tive um AVC, estive em coma e, essa parte, deve ser má demais para ser lembrada. Embora a vida seja o que lembramos e eu acho que não estou morto. Acho.


De quando estive apagado, apenas recordo as melodias que a Margarida me punha nos ouvidos, dos iogurtes de chocolate que ela e a minha irmã me traziam às escondidas e de ter estado em Goa durante a invasão da União Indiana, que aconteceu antes de eu nascer. A baía de Goa, que não sei se existe, era (ou é ou nunca foi) ultra bonita. Não vou chatear com detalhes, mas é impressionante a clareza com que me surgem pormenores de locais onde, de certeza, nunca estive.


Acho que é por isto que nunca vou acabar nada: ainda agora comecei e já estou a pensar nas dunas de plástico. Enfim. Calma é uma das coisas que o AVC me roubou. Existem outras, mas, em princípio, lá chegarei.


Quero, desde já, esclarecer uma coisa: este não é um texto espiritual: nunca vi luz nenhuma, nem nunca estive em nenhum túnel. Pelo menos durante o coma.


Da sulipampa não me lembro. Sei, porque me disseram, que estava em casa, no quarto, que caí e parti a cabeça, mas não me lembro. Deve ter sido assustador para a Margarida, chegar a casa e ver-me caído a sangrar. Nem é bom pensar.


No entanto, no meio de tanto mal, o AVC teve também algumas coisas boas. Por exemplo, permitiu-me eliminar alguns filtros. Os nossos gestos ou palavras podem trazer más consequências, mas dizer ou fazer o que se pensa vai direto ao coração. Outra das coisas boas foi afastar algumas pessoas e trazer outras. Já lá vamos.


Do cabeludo devo ter acordado sem grandes campainhas, já que as enfermeiras falavam entre elas como se eu não ouvisse. Ou então eram malucas.


Essa é a primeira coisa de que quero falar. Uma das enfermeiras era lésbica e falava, despudoradamente, da sua relação com muita, digamos, abertura. Confesso que a ideia de duas mulheres aos beijos me agrada bastante e, mesmo sem mexer um único músculo, imaginá-la com outra mulher era muito excitante. Não sei se às mulheres agrada, da mesma maneira, imaginar dois homens juntos, mas, aos homens, agrada muito ver duas mulheres aos beijos. Tenho que perguntar às mulheres que conheço. Uma vez ouvi-a dizer a uma colega:


- Eu amo-a, mas o corpo dela também me faz falta.


Como eu compreendia bem aquelas palavras. Mesmo estando completamente imóvel, o cérebro continuava a funcionar e o desejo mantinha-se elevado. Ouvir aquilo intensificou-o e elevou-o à potência do seu corpo.


Pelo que percebi a paixão era suficientemente forte para enfrentar os preconceitos e destruiu a maioria deles. No entanto, amar não significa aceitar tudo e ela não conseguia aceitar que a grande paixão dela tivesse um filho biológico. A meu ver é uma tremenda estupidez ter medo do passado, mas tem que se respeitar. Seria o mesmo que um homem não amar uma mulher apenas porque ela tem filhos de uma relação anterior – não faz sentido.


Curioso, teve que lutar contra preconceitos alheios e estava a ser derrotada pelo dela. Nem em nós podemos confiar.


Como devem imaginar, também havia enfermeiras heterossexuais, mas essas não eram tão despudoradas e excitantes, mas também falavam das suas relações à minha frente. Desde novos namoros a casamentos, divórcios e casualidades – ouvi de tudo. Ainda hoje não sei, ao certo, se não sabiam, mesmo, que eu as ouvia ou se estavam a fazer de propósito e a provocar-me. Tenho quase a certeza que era a primeira, mas gosto de pensar que me provocavam. Faz-me bem ao ego.



 

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