#50
Junho 12, 2025
Ainda sobre a passagem do tempo...
A ideia que eu tenho de antes do AVC é que o tempo parece passar muito devagar nas situações mais complicadas. Tipo, quando foi o apagão, o dia não pareceu mais longo?
Por essa ordem de ideias, todos os meus dias deviam ser incrivelmente longos.
Mas não.
Pelos vistos eu gosto de estar tetraplégico:
devo gostar de acordar e não conseguir coçar o olho,
de olhar para o teto e saber que ele é o meu único céu possível naquele dia.
Gosto de ouvir conversas sobre mim como se eu não estivesse ali.
De ver o tempo correr lá fora — correr, que palavra engraçada —
enquanto aqui dentro ele se dissolve como sal em água parada.
Se calhar eu gosto de ser este corpo quieto,
esta ausência de gesto.
Gosto da paciência dos outros, que às vezes é impaciência disfarçada.
Gosto de ser o silêncio onde antes havia ruído.
Gosto de medir o tempo não em horas, mas em "ainda não".
Ou talvez não goste.
Talvez só não tenha escolha.
Talvez o tempo tenha deixado de passar devagar
porque já não há pressa de chegar a lugar nenhum.