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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

Red Tales

>> Cuidemos de Todos Cuidando de Nós <<

 

Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

LATE NIGHT SECRETS

Maio 25, 2005

Não poderia concordar mais... Um dos grandes poetas das tragédias e medos humanos:


Fire and Ice
Robert Frost, 1920.



Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To know that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

...

Outubro 03, 2004

O   L i v r o


Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim


 


E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.


Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz já não é dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.

LATE NIGHT SECRETS

Agosto 01, 2004

i n f e r n o


(Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim)


 



na suave asa do grito reflecte-se o lume


comestível do tempo - a mão transformada


em polvo sacode a erva seca no sangue


da manhã


 


eis o mundo feérico das feridas incuráveis
o inferno
mesmo quando dormes gemes abandonado
ao estertor da chuva na vidraça e ao vento
que dança na persiana


 


não saberás nunca da tua metamorfose
em pantera aérea - vou proibir que te passeies
por cima dos sentimentos e dos móveis


 


e que te vingues
do hábil sedutor de feras

...

Maio 06, 2004

Herberto Helder



Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.


Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.


Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

...

Junho 09, 2003

voz numa pedraNão adoro o passadonão sou três vezes mestrenão combinei nada com as furnasnão é para isso que eu cá andodecerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luizdecerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava Joãonenhuma nenhuma palavra está completanem mesmo em alemão que as tem tão grandesassim também eu nunca te direi o que seia não ser pelo arco em flecha negro e azul do ventoNão digo como o outro: sei que não sei nadasei muito bem que soube sempre umas coisasque isso pesaque lanço os turbilhões e vejo o arco írisacreditando ser ele o agente supremodo coração do mundovaso de liberdade expurgada do menstruorosa viva diante dos nossos olhosAinda longe longe essa cidade futuraonde «a poesia não mais ritmará a acçãoporque caminhará adiante dela»Os pregadores de morte vão acabar?Os segadores do amor vão acabar?A tortura dos olhos vai acabar?Passa-me então aquele caniveteporque há imenso que começar a podarpassa não me olhas como se olha um bruxodetentor do milagre da verdadea machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhumanada está escrito afinal
Mário Cesariny

LATE NIGHT SECRETS

Janeiro 30, 2003

Li, há uns dias, a alguém que escrevia num comentário de um blog, que Fernando Pessoa está fora de moda.


 


A P O N T A M E N T O
Álvaro de Campos



A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.


Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.



Fiz barulho na queda como um faso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.


Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?


Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.


Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.


Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

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