A Casa Por Fazer
Junho 12, 2025
Inspirado por Trivial (https://contame-historias.blogs.sapo.pt/trivial-186383). Poema que gosto muito. Espero que a autora não se importe.
Estamos cheios de silêncio.
A morte passa —
leve, quase nada.
Um sopro de sorte,
um golo de sol
na boca da tarde.
Sobe o gesto,
entre a dobra da camisa
e a memória da pele:
um cheiro antigo,
um regresso adiado.
A rua desce
até ao bar vazio.
Na mão,
dois tostões,
preço do coração
e de uma sombra sentada no canto.
No copo,
a sede de um nome
que ainda não conhecemos,
e do lugar onde amanhece
sem termos lá estado.
A casa veste silêncio.
Não tem telhado,
nem chão —
só estrelas cansadas
de esperar o céu.
E o poeta,
com os olhos cheios de longe,
permanece:
uma parede por subir,
uma palavra por nascer,
um lume por acender.
O tempo chega sempre
antes do poema.