Asa
Agosto 05, 2025
Depois do Grande Clarão, o mundo não acabou — apodreceu devagar, como carne esquecida sob sol radioativo. A terra deixou de cantar, os rios perderam os nomes e o céu desfez-se em cinzas que nunca assentam. Só as ruínas resistem. E entre todas, a mais viva é esta: a Biblioteca-Castelo de Édros.
Até que o chão de pedra deu lugar a terra seca e fendida. No fundo de uma cripta aberta pelo próprio colapso do mundo, ali estava ela — a nave.
Antiga. De outra era. Coberta por líquenes vermelhos e inscrições que não fui eu que escrevi. A carcaça rangia como se lhe doesse respirar. Mas ainda funcionava. E ainda me obedecia.
Asa recuou, os olhos alargados pela certeza de que não era só o metal que estava vivo — era a nave inteira, faminta.
— Não quero entrar — sussurrou. As palavras saíram-lhe em estilhaços.
Inclinei-me até os nossos narizes quase se tocarem. — Não tens de querer.