Compulsão - 10
Junho 03, 2025
quando, no dia seguinte, liguei o computador no trabalho, já tinha uma mensagem da secretária da direção:
Bom dia, Bruno. Assim que puderes passa aqui. Tenho alguma urgência em falar contigo.
Mafalda.
confesso ter ficado um pouco assustado. de imediato me dirigi ao posto da Mafalda:
- Olá, Bruno. Senta aí um bocadinho.
- …
- Como sabes, periodicamente,
o que senti foi um misto de sensações. se, por um lado, me sentia aliviado, por outro, a notícia não me agradava. para além do cansaço que implica viajar e estar fora do país em trabalho, só pensava que agora que me envolvi com a Maria vou para fora:
- Eu, outra vez? Não há mais ninguém?
- A professora diz que és o único que alia competências técnicas, elevado conhecimento geral do projeto e fluência em inglês. Quer mesmo que vás tu. Considera isto como um prémio. Quem dera a muitos ir para Roma.
- É, é um prémio: ir para fora, para uma cidade onde já estive várias vezes; apesar da doutora Sandra ser uma excelente companhia e sermos muito amigos, vou estar sozinho e longe dos que amo – para estar sozinho, prefiro estar aqui; comida diferente; hotel barato; com sorte, quarto demasiado quente e com o aquecimento avariado ou bloqueado. Rico prémio!
- Resmungão!
fiquei de rastos. a solidão, assim experimentada, é a maior das crueldades.
um infinito vazio nas veias.
uma sombra fria na memória que oprime e aterroriza a existência.
é ter, no espelho, como único reflexo, um demónio chamado Depressão
ou sentir presenças negras a florirem por todo o corpo.
experimentar esta solidão é senti-la acordar-me, arrepiado de medo, acariciando-me o corpo com unhas afiadas. é senti-la de noite, quando me sufoca e obriga a iluminar o quarto para confirmar que continua a única presença. é senti-la quando me segue pelo quarto e engole o som dos meus passos. o seu silêncio. a maior crueldade é antes o seu silêncio. mantém-se secreta, caminha em total mutismo e – como a sombra – a sua aparição é sempre silente, sempre taciturna. a sua aparição, o seu espetro e o seu silêncio. torturantes e sanguinários. senti-la roubar o som de todas as vozes, é odiar todas as palavras que a definem. saber que afoga o murmúrio de um beijo e, como a noite, o cantar de todos os pássaros, é odiar todas as palavras que a definem. ou, talvez, o seu peso. talvez a maior crueldade seja o seu peso e a forma como esmaga o meu corpo. a forma como reduz as dimensões do meu corpo: o meu crânio a poucos centímetros dos meus pés. por causa do seu peso: o meu crânio sobre os meus pés. o seu peso é cruel. sanguinolento. mesmo quando sangrenta, nem a morte é tão tirana.
eu já conhecia esta forma de solidão e não tinha vontade nenhuma de a reencontrar.