telefonei à Maria pouco depois da Mafalda falar comigo, passámos todo o tempo que pudemos juntos e na terça-feira, de manhã cedo, lá estava eu, no aeroporto.
a doutora Sandra é uma mulher muito culta, o que tornou a viagem deliciosa. mesmo quando atravessámos uma zona de alguma turbulência, com uma história sobre a bravura dos antigos romanos, a segurança na voz dela eliminou qualquer receio que eu pudesse ter.
não ficou nervosa quando
o comandante anunciou irmos atravessar uma zona de turbulência. permaneceu serena quando o alvoroço, correria e secretismo das hospedeiras se tornaram uma evidência e manteve-se calma quando o avião começou a tremer e alguns objetos voaram pela cabine, mesmo quando a agitação e alguns gritos tomaram conta dos outros passageiros – e sabemos que, nestas situações, o efeito de contágio é grande e poderoso –, ela demonstrou uma tranquilidade oceânica. nem quando iniciámos a descida, ainda a vivermos toda aquela confusão, ela se mostrou nervosa. ao contrário de mim, cujo nervosismo, não conseguia disfarçar. pegou-me na mão, puxou-a para o colo dela, afagou-a e, novamente com grande segurança, disse para eu ter calma e que ia correr tudo bem. apesar da baixa temperatura no avião, as mãos dela estavam quentes (não demasiado). eram suaves. de certa forma, envolventes, delicadas e mágicas: transferiram para mim alguma da tranquilidade dela.
creio não haver nada de romântico ou esotérico em passar a gostar mais de alguém em situações de perigo. acredito mais
que há causas químicas. em situações de perigo, libertam-se determinadas hormonas no nosso sangue e algumas delas aumentam o nosso estado de alerta, permitindo-nos ver coisas que não víamos antes. acredito que nesses momentos, ao mudar a nossa perceção, mudam as nossas experiências e, consequentemente, muda a nossa memória e o que sentimos. não raras vezes e da mesma maneira, embora não lhe demos muita importância, se passarmos uma situação limite perto de alguém de quem não gostamos, o nosso ódio por essa pessoa aumenta.
de uma forma ou de outra, desde a turbulência, via a doutora Sandra de forma diferente: mais brilhante; com lábios e
sorriso mais generosos; os olhos estavam mais exóticos e pestanejavam lentamente, como os de um felino; até a sua voz mudou para uma versão mais rouca e mais lenta. a maneira como cruzava e expunha as pernas destapadas evidenciava bem mais a mulher e despertava em mim um desejo que ela nunca provocara. admito que, naquele momento, quis sentar-me em frente a ela, colocar-lhe uma mão em cada joelho, abrir-lhe mais as pernas e observar o animal selvagem, molhado e faminto que lhe adivinhava entre elas.
o cheiro da doutora Sandra também mudara e era agora mais veemente, mais doce e mais sedutor. era o cheiro de quem acabou de sair da praia e ainda traz na pele os aromas do creme protetor.
ela, como que adivinhando os meus pensamentos e gostando deles, olhou para mim e sorriu com mistério. sorriu como se soubesse estar a excitar-me e isso lhe desse prazer.
o meu pénis cresceu.
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