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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

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>> Cuidemos de Todos Cuidando de Nós <<

 

Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

Compulsão - 13

Junho 06, 2025

ao entrar, os meus receios confirmaram-se: o quarto era minúsculo, estava um calor imenso, era alcatifado e, não menos importante, a decoração em nada tinha a ver com a da receção:

móveis velhos; todos os têxteis desbotados, já todos teriam ultrapassado o seu tempo de vida; na cabeceira da cama, ao lado dela, havia um sofá verde (que eu vi durante dois segundos antes de decidir que nunca o usaria); a, única, janela tinha uma cortina em veludo vermelho e a cama estava coberta com uma colcha de lã acinzentada com pequenos apontamentos também vermelhos.

nitidamente houve ali uma tentativa de combinar as duas coisas, mas, para dizer a verdade, parecia que um animal tinha ficado ferido na janela e ido morrer à cama.

para terminar em grande, a iluminação era muito forte e branca. não fosse o calor e diria estarmos num hipermercado.

sentei-me na beira da cama, camisa meio desabotoada e mãos confusas. o suor escorria lento pelas costas. tirei os sapatos com movimentos mecânicos, mas o corpo não queria repouso. olhei de novo para a porta. na minha cabeça repetia-se: se precisares de ajuda com alguma coisa… bate.

no fundo, o hotel era uma mentira. uma mentira contada até à exaustão. uma mentira que todos conhecem, mas em que todos fingem acreditar. viver de aparências, afinal, não é um exclusivo português. por todo o lado, se substitui a sociedade de consumo pela das aparências.

 

não conseguia estar nem dois minutos no quarto de camisola vestida, por isso, mesmo sabendo que teria de esperar algum tempo, decidi descer ao restaurante.

enquanto esperava, diverti-me a inventar biografias das pessoas que me rodeavam, inspirando-me apenas nas suas fisionomias e roupas. transformei o restaurante num bloco de prédios. cada mesa era um apartamento ou andar. ali, no primeiro andar, mora uma

mulher amordaçada, uma feiticeira que o tempo se encarregou de transformar em resíduos de sangue e musgo esverdeado. passa os dias a observar as peras e nêsperas de árvores de jardim que nunca dão fruto. no terceiro andar, mora outra mulher igual que nunca vem à janela. na única varanda sem marquise, um vitral

de roupas coloridas flutua tranquilamente. são roupas do casal mais jovem do prédio, acho que trabalham os dois e não têm filhos, raramente os vejo, não sei sequer a que horas penduram o tempo que lhes resta no velho estendal. o segundo, o quarto e o quinto andar, não têm roupa estendida e estão para venda. o terceiro andar está alugado a estudantes. raramente são vistos, mas ouvem-se todos os dias. são três e, por culpa deles, já foi necessário desentupir os esgotos do prédio. ainda bem, porque descobriram o canário da velha feiticeira. no sexto andar, mora a serpente selvagem do bairro. no arame, roupa preta, lingerie preta e uns chinelos de pano, pretos: uma pantera noturna com cabelos de seda e corpo de gestos e ritmos fulgurantes. no sétimo andar moro eu.

no primeiro mora a única família completa. gosto quando brincam os quatro com o labrador, o mesmo que alguém já tentou envenenar. neste bloco existem mais oito prédios, mas não conheço ninguém. como tenho garagem raramente me cruzo com quem quer que seja. moramos todos muito longe de tudo, moramos todos muito longe de todos, mas temos um jardim, que ninguém usa, com árvores de fruto que nunca dão fruto.

entretanto, a doutora Sandra chegou. já não tinha o vestido rosa, mas ténis vermelhos, calças de ganga claras e uma camisa branca por fora das calças. os três botões de cima da camisa estavam desapertados e formavam um decote delicioso. os seios, creio eu, estavam sustentados por um cavado sutiã e formavam-lhe no peito um aprazível, fulgurante e distinto vale. trazia um casaco da cor dos ténis na mão. sentia-me dançar ao ritmo que ela marcava com o corpo. enquanto caminhava para a mesa, não consegui parar de sorrir ou desviar dela o olhar.

enquanto comíamos, combinámos o percurso para a tarde e trocámos algumas provocações, que, como temos um humor semelhante, tornaram o almoço muito animado. já o voo e a viagem de táxi tinham sido, mas a cumplicidade crescia muito a cada segundo.

 

 

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