Compulsão - 13
Junho 06, 2025
ao entrar, os meus receios confirmaram-se: o quarto era minúsculo, estava um calor imenso, era alcatifado e, não menos importante, a decoração em nada tinha a ver com a da receção:
nitidamente houve ali uma tentativa de combinar as duas coisas, mas, para dizer a verdade, parecia que um animal tinha ficado ferido na janela e ido morrer à cama.
sentei-me na beira da cama, camisa meio desabotoada e mãos confusas. o suor escorria lento pelas costas. tirei os sapatos com movimentos mecânicos, mas o corpo não queria repouso. olhei de novo para a porta. na minha cabeça repetia-se: se precisares de ajuda com alguma coisa… bate.
no fundo, o hotel era uma mentira. uma mentira contada até à exaustão. uma mentira que todos conhecem, mas em que todos fingem acreditar. viver de aparências, afinal, não é um exclusivo português. por todo o lado, se substitui a sociedade de consumo pela das aparências.
não conseguia estar nem dois minutos no quarto de camisola vestida, por isso, mesmo sabendo que teria de esperar algum tempo, decidi descer ao restaurante.
enquanto esperava, diverti-me a inventar biografias das pessoas que me rodeavam, inspirando-me apenas nas suas fisionomias e roupas. transformei o restaurante num bloco de prédios. cada mesa era um apartamento ou andar. ali, no primeiro andar, mora uma
mulher amordaçada, uma feiticeira que o tempo se encarregou de transformar em resíduos de sangue e musgo esverdeado. passa os dias a observar as peras e nêsperas de árvores de jardim que nunca dão fruto. no terceiro andar, mora outra mulher igual que nunca vem à janela. na única varanda sem marquise, um vitral
no primeiro mora a única família completa. gosto quando brincam os quatro com o labrador, o mesmo que alguém já tentou envenenar. neste bloco existem mais oito prédios, mas não conheço ninguém. como tenho garagem raramente me cruzo com quem quer que seja. moramos todos muito longe de tudo, moramos todos muito longe de todos, mas temos um jardim, que ninguém usa, com árvores de fruto que nunca dão fruto.
enquanto comíamos, combinámos o percurso para a tarde e trocámos algumas provocações, que, como temos um humor semelhante, tornaram o almoço muito animado. já o voo e a viagem de táxi tinham sido, mas a cumplicidade crescia muito a cada segundo.