Compulsão - 14
Junho 07, 2025
o primeiro sítio que visitámos foi o Coliseu.
eu juraria que, a dado momento, foi possível ouvir os gritos de cristãos prestes a ser devorados.
de seguida, apesar do destino final ser mais próximo, apanhámos logo um táxi para a Piazza di Spagna, onde fica a famosa escadaria que é palco dos desfiles da Semana da Moda de Roma. Para mim não era, nem de perto, nem de longe, um dos pontos de maior interesse na cidade de Roma, mas ainda bem que lá fomos.
tínhamos visto no mapa onde queríamos ficar. mais uma vez, a doutora Sandra assumiu a comunicação e explicou ao taxista que queríamos ficar junto à Rolex na Via dei Condotti. o nosso plano era irmos dali à Piazza di Spagna a pé e ver todas as lojas de luxo na Via dei Condotti. e eram muitas:
Cartier, Louis Vuitton, Gucci, Armani, etc.
no táxi, ficámos no banco de trás, Roma ia passando pela janela com o mesmo vigor com que a voz dela passava no meu peito. a doutora Sandra tem a voz muito grave. quando ela fala é como se um oboé me fizesse vibrar as entranhas, é como se a voz ganhasse corpo e me acariciasse o ventre. nem relâmpagos sem chuva aquecem florestas como a mim me aquece a sua voz.
quando chegámos, reparámos logo que algo se passava por ali: a estrada estava separada dos passeios por grades para controlo de multidões, o trânsito estava cortado (o táxi, inclusive, teve de ficar numa perpendicular) e havia muitas pessoas no passeio.
os quatro ou cinco minutos, que normalmente demoraríamos naquele percurso, foram multiplicados por dez com as frequentes paragens a que as montras obrigavam. felizmente, não podíamos atravessar a rua.
a certa altura, tenho certeza ter visto nela uma expressão de agradecimento.
na Piazza di Spagna, centenas ou, talvez, milhares de pessoas preenchiam, não só, a praça como a célebre escadaria – o que não me agradava.
tive uma educação católica, mas não me lembro de alguma vez ter entrado numa igreja com um propósito diferente do turístico. sei que o fiz, há fotografias que o provam, quando fui batizado, mas, apesar disso e de nenhum dos dois ser crente, decidimos imediatamente ficar por ali.
senti alguns ciúmes quando me apercebi que, mesmo sem ser crente, a doutora Sandra se emocionou quando o papa chegou. não conseguia perceber o motivo de tanta emoção. talvez tenha sido a euforia da multidão que a emocionou, já que, de onde estávamos, pouco mais víamos que o solidéu. eu só pensava que aquela seria uma boa altura para um atentado bombista. confesso que me excitava imaginar centenas de corpos mutilados e ensanguentados. apesar das minhas convicções, naquele momento senti que Cristo nos abraçava, que tinha serpenteado todas aquelas pessoas nos degraus, propositadamente para nos abraçar.
quando o papa foi embora seguimos para o destino final do nosso passeio: Fontana di Trevi. a fonte imortalizada por Fellini no seu La Dolce Vita.
não sei como são as restantes fontes em Itália, mas a Fontana di Trevi não é como uma tradicional fonte portuguesa. para já tem cerca de 26 metros de altura e 20 metros de largura, depois é uma construção barroca e finalmente está encostada à fachada de um palácio, confundindo-se com ela.
na Fontana di Trevi, primeiro cumprimos a tradição de atirar uma moeda para dentro de água e formular um desejo, de seguida, ficámos muito tempo sentados, a apreciar os numerosos detalhes da obra.
para ser honesto, não era a estátua de Neptuno em mármore impecavelmente branco, nem as quatro estátuas alegóricas – fartura; fertilidade; colheita e prados - localizadas no topo da fonte, o que mais chamava a minha atenção. estava mais focado nos detalhes dela que nos da Fontana. considerava-a uma mulher muito culta e inteligente. sabia que ela associava múltiplas fontes de informação técnica e geral com literatura e poesia. isso fascinava-me, mas também me intimidava e prendia numa cela de mudez e gestos inúteis.
apesar de ainda ser cedo, já era de noite quando decidimos voltar ao hotel. o dia não foi menos que perfeito. aliás, teve um defeito: terminou. embora, nunca tenha terminado. a eternidade já havia antes nascido e agora era aquele dia.