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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

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Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

Compulsão - 14

Junho 07, 2025

o primeiro sítio que visitámos foi o Coliseu.

tivemos sorte que não estava lá quase ninguém. sentámo-nos um momento numa bancada e juntámos o nosso silêncio ao arrebatador peso que a história tem naquele local, os nossos ombros quase tocavam o chão. ali tudo é lento. havia obras, parte das catacumbas podiam ver-se e

eu juraria que, a dado momento, foi possível ouvir os gritos de cristãos prestes a ser devorados.

eu nunca fui grande coisa a história, mas tinha-lhe um infinito respeito e o Coliseu concentra muita história. mesmo alguma que não está diretamente ligada à imponente construção, passa por lá. desconfio que só as pirâmides egípcias terão o mesmo peso nos meus ombros.


de seguida, apesar do destino final ser mais próximo, apanhámos logo um táxi para a Piazza di Spagna, onde fica a famosa escadaria que é palco dos desfiles da Semana da Moda de Roma. Para mim não era, nem de perto, nem de longe, um dos pontos de maior interesse na cidade de Roma, mas ainda bem que lá fomos.


tínhamos visto no mapa onde queríamos ficar. mais uma vez, a doutora Sandra assumiu a comunicação e explicou ao taxista que queríamos ficar junto à Rolex na Via dei Condotti. o nosso plano era irmos dali à Piazza di Spagna a pé e ver todas as lojas de luxo na Via dei Condotti. e eram muitas:

Cartier, Louis Vuitton, Gucci, Armani, etc.


no táxi, ficámos no banco de trás, Roma ia passando pela janela com o mesmo vigor com que a voz dela passava no meu peito. a doutora Sandra tem a voz muito grave. quando ela fala é como se um oboé me fizesse vibrar as entranhas, é como se a voz ganhasse corpo e me acariciasse o ventre. nem relâmpagos sem chuva aquecem florestas como a mim me aquece a sua voz.
quando chegámos, reparámos logo que algo se passava por ali: a estrada estava separada dos passeios por grades para controlo de multidões, o trânsito estava cortado (o táxi, inclusive, teve de ficar numa perpendicular) e havia muitas pessoas no passeio.
os quatro ou cinco minutos, que normalmente demoraríamos naquele percurso, foram multiplicados por dez com as frequentes paragens a que as montras obrigavam. felizmente, não podíamos atravessar a rua.


a certa altura, tenho certeza ter visto nela uma expressão de agradecimento.
na Piazza di Spagna, centenas ou, talvez, milhares de pessoas preenchiam, não só, a praça como a célebre escadaria – o que não me agradava.

os prédios em volta da praça exibiam mantas, na maioria brancas ou amarelas, em quase todas as varandas. foi uma autêntica aventura chegar à escadaria e uma aventura ainda maior subi-la, desviando-nos de todas as pessoas e tentando não pisar ninguém. quando chegámos ao topo, perguntei a um rapaz o que estava a acontecer ali. ele não me percebeu, mas um outro disse-nos, com um inglês perfeito, que o papa iria celebrar missa naquele local.


tive uma educação católica, mas não me lembro de alguma vez ter entrado numa igreja com um propósito diferente do turístico. sei que o fiz, há fotografias que o provam, quando fui batizado, mas, apesar disso e de nenhum dos dois ser crente, decidimos imediatamente ficar por ali.
senti alguns ciúmes quando me apercebi que, mesmo sem ser crente, a doutora Sandra se emocionou quando o papa chegou. não conseguia perceber o motivo de tanta emoção. talvez tenha sido a euforia da multidão que a emocionou, já que, de onde estávamos, pouco mais víamos que o solidéu. eu só pensava que aquela seria uma boa altura para um atentado bombista. confesso que me excitava imaginar centenas de corpos mutilados e ensanguentados. apesar das minhas convicções, naquele momento senti que Cristo nos abraçava, que tinha serpenteado todas aquelas pessoas nos degraus, propositadamente para nos abraçar.

não sei se ela sentiu o mesmo, mas aquela estranha energia encorajou-me a agarrar e acariciar a mão da doutora.
quando o papa foi embora seguimos para o destino final do nosso passeio: Fontana di Trevi. a fonte imortalizada por Fellini no seu La Dolce Vita.
não sei como são as restantes fontes em Itália, mas a Fontana di Trevi não é como uma tradicional fonte portuguesa. para já tem cerca de 26 metros de altura e 20 metros de largura, depois é uma construção barroca e finalmente está encostada à fachada de um palácio, confundindo-se com ela.


na Fontana di Trevi, primeiro cumprimos a tradição de atirar uma moeda para dentro de água e formular um desejo, de seguida, ficámos muito tempo sentados, a apreciar os numerosos detalhes da obra.
para ser honesto, não era a estátua de Neptuno em mármore impecavelmente branco, nem as quatro estátuas alegóricas – fartura; fertilidade; colheita e prados - localizadas no topo da fonte, o que mais chamava a minha atenção. estava mais focado nos detalhes dela que nos da Fontana. considerava-a uma mulher muito culta e inteligente. sabia que ela associava múltiplas fontes de informação técnica e geral com literatura e poesia. isso fascinava-me, mas também me intimidava e prendia numa cela de mudez e gestos inúteis.
apesar de ainda ser cedo, já era de noite quando decidimos voltar ao hotel. o dia não foi menos que perfeito. aliás, teve um defeito: terminou. embora, nunca tenha terminado. a eternidade já havia antes nascido e agora era aquele dia. 

 

 

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