Compulsão - 21
Junho 18, 2025
- Maria, lembras-te de me ter pedido para ver o que está debaixo daquele lençol e de eu ter recusado? – Perguntei. – Faz-me um favor, baixa um pouco a luz.
- Claro que lembro. Eu nunca esqueço uma nega. – Respondeu, com um sorriso, enquanto baixava a luz e deixava o quarto mais frio e mais cinzento. sem sombras e sem arestas.
- Não foi uma nega. Simplesmente não era a altura certa. Tira lá o lençol.
foi visível o ar de desilusão na sua cara quando destapou o misterioso aparelho:
- Uma cadeira, Bruno? Tens uma cadeira escondida? Tudo bem que é toda tecnológica e que tem um design diferente, nunca tinha visto uma com um aspeto tão biológico, tão vivo, mas é uma cadeira! É feita de quê?
- É eletrónica e mecânica por dentro (ferro, silício e outros materiais) e é mesmo biológica por fora. É revestida a um material que imita carne, tanto na cor como na textura e, quando ligada, até no cheiro; quando se liga liberta um odor ferroso e salgado. A camada mais exterior do revestimento é feita com verdadeira pele humana e quem nela se senta sente-se como se estivesse ao colo de alguém. Em Portugal, desta marca e modelo, só há esta. Não é uma cadeira normal, vou-te mostrar!
levantei-me da cama, agarrei a Naomi pelo cabelo e levei-a até ao estranho objeto. já perto, empurrei-a na direção da cadeira, o que a desequilibrou e deixou sentada. prendi-lhe os braços nos apoios de braços e as pernas nas pernas da cadeira. quando me abaixei para lhe prender as pernas, aproveitei para tirar de um pequeno compartimento o controlo remoto da cadeira. o próprio comando parecia ter vida, movia-se autonomamente sobre ele próprio. torcia-se, e, em vez de serem os nossos dedos a procurar os botões, eram os botões a procurar os dedos.
afastei-me um pouco e perguntei à Naomi se estava pronta. ela fechou os olhos lentamente e, mantendo-os fechados, com um tímido, assimétrico e ligeiríssimo sorriso, respondeu-me que sim com um, também lento, gesto da cabeça. assim, nua e na penumbra, estava mais sensual que nunca. o gesto foi sedutor, com ele senti que estava a ultrapassar os naturais limites que me imponho perante clientes:
… :
- Sabes, Maria, foi um investimento avultado, mas olhando agora para a Naomi sei que foi certo. Outra coisa, ela tem uma reação estranha ao prazer extremo não fiques incomodada.
- Estranha? Como assim?
sorri ironicamente e respondi:
- Tu, na altura, vais-te aperceber.
quando acabei a frase, carreguei no botão do comando que ligava a cadeira e o som da minha voz foi substituído pelo típico murmúrio dos ventiladores em aparelhos elétricos. carreguei em outro botão e por entre as pernas da cadeira surgiu um braço articulado que terminava em semicírculo e tinha uma lâmina muito fina na ponta. o tentáculo, resultado do seu revestimento – biológico, tal como no resto da cadeira – e de cuidada apresentação, assemelhava-se bastante a dois troncos entrelaçados – com pele em vez de casca – e movia-se, não mecanicamente, mas como uma serpente, posicionou-se com a lâmina muito perto dos seios da Naomi e por ali ficou. parado e ameaçador. a tornar a cena ainda mais assustadora, uma única luz led iluminava a lâmina e o sítio para onde apontava, que incluía um dos mamilos da Naomi.
naquele momento olhei para a Maria. na cara dela, podia ver-se uma deliciosa mistura de terror e excitação. as mãos tremiam-lhe ligeiramente, mas a ereção e rigidez dos mamilos denunciavam um claro prazer:
- Não te preocupes, Maria. Ela já fez isto outras vezes.
a imagem era, por si só, violenta: a Naomi, nua e tatuada, sentada e presa a uma cadeira que parecia viva e sanguinolenta; que a envolvia como se a abraçasse e que, por causa da textura gelatinosa, a afundava e parecia querer afogar. havia no corpo dela uma excitante promessa de sangue dada pela proximidade da lâmina.
à minha ordem, dada no comando, o braço articulado desceu-lhe até às pernas e a lâmina cravou-se-lhe inúmeras vezes em vários pontos da perna. de seguida voltou atrás e uniu os vários golpes com um arranhão muito superficial. os gemidos da Naomi eram constantes e era impossível dizer se eram de dor ou prazer. a Maria perguntou-me:
- Porque é que ela quase não sangra?
- Para além do sistema saber onde furar, o braço articulado está equipado com sensores de alta precisão, sabe exatamente o que está a fazer e evita qualquer vaso que possa causar um sangramento maior. Nos cortes que unem os golpes mais profundos o braço faz uso de outros sensores para cortar apenas a pele.
- As cicatrizes que vi quando a chicoteava são disto?
- E de uma ou outra chicotada mal dada.
- Quer dizer que ela vai andar por aí com marcas causadas por mim?
- Provavelmente.
- Uau! Hot!
não sei se o espaço que a Maria ocupa em mim pode ser preenchido. não sei se me faria sentido não gozar desta mistura de terror e alegria que ela me trouxe. estou preso entre a insónia e a alegria. é como estar entre cimento fresco e furor.