Compulsão - 3
Maio 29, 2025
ainda bem que é sábado. nada como praia de inverno para recuperar de jantares com cinco ou mais pessoas, ainda que em outras mesas.
é incrível. é devastador o silêncio das ondas quando explodem. esta imensidão lembra-me os teus olhos e todas as histórias de tentação neles ocultas. fossem eles da mesma cor desta infinitude e a semelhança seria rigorosa.
lá no fundo, lá em baixo, onde o mundo não grita, onde os motores não chegam, nem as vozes, nem os ecrãs, tudo é outra coisa. a lentidão tem densidade. a ausência de ruído urbano é mais do que silêncio – é paz. é um silêncio húmido e profundo. um silêncio onde até os próprios pensamentos se mexem mais devagar e a memória deixa, por fim, de doer. é como se o tempo também se rendesse e ficasse ali quieto, submerso ao lado do corpo.
cada onda traz um renovado pedaço de mim. ficando aqui o tempo suficiente, é-me possível juntá-los a todos e reconstruir um novo e vigoroso eu. sem os tumores que nasceram ontem.
a areia, reflexo vazio, mesmo húmida – como lágrimas ou beijos – e áspera – como a língua de um animal de bronze –, tem ainda vestígios de amor noturno, não há maré capaz de os apagar. se, por algum infortúnio, acontecer, basta estar atento e na espuma das explosões ouvir-se-ão os ecos de ofegantes gemidos.
vens do mar e seduzes sem saber ou talvez saibas. talvez já saibas da súbita carícia no teu sorriso ou da atração dos lábios: imediato feitiço: rápido, ardente e insinuante. novamente o fulgor e a claridade, novamente pressinto o grito e o perfume, a água, a frescura e a suavidade da orla.
no momento antes do arrepio, no instante entre o abrigo e o desejo, quando o tumulto das aves engole a noite, é na tua voz que nasce o vermelho. nem só este mar é veludo brando na minha pele, nem só o fogo aquece os vales e montes, também o sussurro que te escapa é rubor.