Compulsão - 5
Junho 01, 2025
nunca mais cai a noite para depressa vir o amanhã. nunca mais venho direto do trabalho para as compras. já é uma rotina e eu não gosto de rotinas. não vir direto também pode ser uma rotina. se for um ato consciente. estou tramado.
dizer que se detesta a rotina é um chavão, mas o que seria da humanidade sem a rotina para resolver assuntos repetitivos?
sinto o corpo dormente, é como se uma luz de palha iluminasse o meu sangue. algo me abraça e me aperta os órgãos. toda esta gente a esmagar-me contra o chão e a respirar primeiro que eu. o pensamento e o coração não o fazem, mas lamentavelmente o corpo teima em antecipar desgraças que poderão não acontecer, vive em dúvida permanente. acredito ser transparente ou então sou um grito silencioso.
estes longos corredores encurtam-me. escorregam e reduzem-me. tantas pessoas. tanta escolha. sinto-me preso a esta liberdade: ovos S, M, L, XL; mostarda Savora, Heinz, Hellmann’s, Paladin, Linea. aqui temos tudo o que precisamos para desperdiçar com qualidade. caminhamos para um local estranho. nestas prateleiras está quase tudo em chamas e, no entanto, continuamos a regá-las com o mesmo combustível que alimenta a necessidade.
penso ser necessário, a grande parte da humanidade, reorganizar prioridades, subir na pirâmide das necessidades[1] o lugar da torradeira elétrica e tirá-la do nível das necessidades básicas, sob pena de, se não o fizermos rapidamente, os afetos serem demasiado desvalorizados e não irmos a tempo de corrigir os erros. há muito nevoeiro dentro das pessoas e talvez essa inquietação seja apenas apanágio do sol. no entanto, algo mais grave está a acontecer. creio estarmos a viver uma fase de transição entre uma sociedade de consumo e uma de aparências, onde, mais que ter (ou ser) importa parecer ter (ou ser). cada vez é mais valorizado parecermos felizes, realizados e donos. basta uma breve leitura das redes sociais para termos disso prova. acho que andamos quase todos a morrer aos poucos, à força de nos mostrarmos vivos.
entretanto, este homem, por exemplo, acabou de roubar uma carteira e, por certo, estará pouco apoquentado com afetos. vem na minha direção. não sei se é bom já estar avisado ou se seria melhor não o estar. eu devia tê-lo denunciado, devia ter saído deste lugar de fraqueza. por outro lado, não sei se faria sentido arriscar a minha tranquilidade pelo conforto de alguém que não conheço. por cobardia, não arrisquei e agora corro riscos. que sangue alimentará esta sombra? haverá algum mar que saiba o seu nome? terá sido a transparência a moldá-lo?
em que é que nos tornámos? cada vez há mais marcas de mostarda nas nossas vidas e cada vez nos preocupamos menos com elas. transformámo-nos numa sociedade egoísta, interiorizámos e passámos a viver em função do que nos disseram há uns anos do mais importante ser o que temos. por enquanto, continuamos tão empenhados em ter, que nem damos conta da maré a subir.
um dia terei de andar de barco nestes corredores. acabei de criar o conceito de hipermercado flutuante. mercados flutuantes, a céu aberto, já existem, mas a minha ideia é diferente.
não posso revelar muito, que o segredo é a alma do negócio e é uma ideia bilionária, mas, que por ter surgido agora, está, obviamente, em desenvolvimento. imaginem uma espécie de hipermercado, onde há quase tudo, incluindo, por exemplo, iates e helicópteros (“Ninguém compra isso em hipermercados!”: pois não, não se vende!), onde todas as prateleiras são flutuantes e onde, em vez de carrinhos de compras, se disponibilizam barquinhos de compras anfíbios, que tanto podem ser levados para um parque de estacionamento como para uma marina, há cinquenta anos, a ideia de um hipermercado, tal como hoje conhecemos, também era ridícula e o mais certo é que daqui a outros cinquenta já não existam, até porque vai estar tudo alagado e os que sobreviverem a isso vão ter que enfrentar, pelo menos, dois outros enormes problemas: a pressão imobiliária e a escassez de produtos alimentares que possam ser vendidos. bom, na verdade, isso serão problemas com os quais também eu terei que lidar. no entanto, como o que importa é ter, vou ficar rico e ser muito feliz com isso.
já consigo ver e distinguir cada ruga nas suas mãos. é quase como se um rio tivesse ali passado e aberto sulcos de tranquilidade. tanta firmeza, quando o sangue já tanto arrefeceu, só é possível a quem não sabe ir morrer sozinho – destino de quase todos. e chamam a isto evolução.
acho que vou fechar os olhos e tentar passar por ele quase sem ocupar espaço, como se estivesse a mergulhar no ínfimo lugar entre dois tacos. ele parece estar a morder a vida e deve ser amarga. é agora: vou fechar os olhos, prender a respiração e deixar de pensar.
consigo vê-lo na mesma. não entendo porque ficou tudo tão lento. é como se o ar se tivesse transformado em água espessa e cada gesto precisasse de atravessar um oceano para acontecer. talvez a lentidão seja o mundo a abrandar para que eu perceba melhor o que vem a seguir.
já está. nada aconteceu. vou pagar e voar no preconceito – a barba comprida, ondulada e suja, o cabelo longo e oleoso, a roupa muito gasta e, acima de tudo, o anterior assalto, ajudaram a formá-lo. bem, não se pode dizer que seja preconceito quando eu o vi a assaltar. a minha preocupação era legítima.
vou para casa e já sei que à rotina vou juntar uma mortificante, embora estimulante, insónia. já sei que o sono vai demorar e quando chegar vem acompanhado pela agitação que pressinto na tua entrega.
* FALTA AQUI UM TRECHO *
[1] Teoria proposta pelo psicólogo americano Abraham Maslow (1 de abril de 1908 – 8 de junho de 1970) em que se imaginarmos uma pirâmide, na base da mesma, encontramos as necessidades mais indispensáveis à vida – como as fisiológicas – e conforme vamos subindo vamos encontrando coisas cada vez menos relevantes.