Compulsão - Prólogo
Maio 28, 2025
não quero que o saibas, mas a tua aflição e as tuas lágrimas entusiasmam-me ainda mais. elas são a prova da minha influência.
adoro ver no teu rosto a incerteza.
adoro dar-te tudo, só pelo prazer de to tirar.
na penumbra do quarto, com a tua posição fetal disfarçada apenas pela seda branca dos meus lençóis, o arrebatamento provocado pela tua invisível, mas adivinhada, nudez só é superado pela evidência das tuas mãos amarradas atrás das costas.
pensar no teu nome é vestir a memória de ti com memórias ardentes que se enrolam ao corpo. é impressionante sentir, ao mesmo tempo, todas as emoções que ardem no meu corpo quando penso no teu nome. é como se todos os rios do planeta fossem vermelhos, profundos e terminassem no mesmo sítio.
amo-te tanto, Maria. a exaltação é tão intensa que me sinto a um pequeno passo de te silenciar para sempre e me deleitar com o teu sangue.
sentei-me junto a ela e, da gaveta da rústica e escura mesa-de-cabeceira, retirei um xis-ato. com movimentos lentos e sem nunca desviar a atenção do lençol e da silhueta que me enfeitiça, abri o xis-ato e, com a ponta da lâmina, levantei temporariamente o lençol, revelando a, sempre desejada, nudez da Maria e algumas das marcas no corpo dela e que faziam prova da intensidade noturna.
sei que dormes e não podes ouvir-me (se calhar só o digo porque sei que não ouves), mas na mesma quero dizer que todos os meus gestos são reflexo do medo que tenho de um dia ter de viver sem ti. o que era uma simples, muitas vezes incontrolável, reação química, tornou-se em algo maior que o tempo, mais importante que a própria existência.
no entanto, a Maria, debaixo dos lençóis, estava acordada e no rosto tinha manifestada uma mistura de alegria e terror. alegria pelo que tinha ouvido e o terror que lhe causava a proximidade do xis-ato nas mãos de alguém como ele.
sei que temos uma história, mas para mim não é um passado: é um conjunto de momentos que continuam presentes e que quero eternos.
ver-te aí, deitada, submissa, à disposição de todos os meus caprichos, transporta-me à intensidade daqueles primeiros dias e recordo na perfeição os mais pequenos detalhes e até os intervalos em que fisicamente não estavas.