MEMÓRIA DO FOGO - PREFÁCIO
Maio 15, 2025
Há livros que não se leem — acendem-se. Memória do Fogo é um deles. Luís Abreu não escreve para explicar o amor, mas para tocá-lo onde mais arde: no que faltou dizer.
Logo nas primeiras páginas, somos avisados: "nem tudo o que termina se apaga. há silêncios que continuam a arder." — e é exatamente isso que os poemas fazem. Eles não procuram respostas, mas ecoam as perguntas que deixamos escondidas nos cantos do peito.
Este livro é um mapa do que se sente quando "o corpo desaprende o toque, mas a pele lembra". Cada poema é uma memória viva, uma brasa que ainda queima no escuro — mesmo quando pensamos que já passou. São palavras escritas com o corpo, no corpo, para o corpo. É amor que não acabou, mas mudou de forma. É ausência que "arde sem luz, sem pressa. não grita. fica."
Ao longo destas páginas, encontramos um lirismo cru e terno, onde o desejo é também silêncio, e o silêncio é linguagem: "falavas pouco — era o teu corpo que dizia: fica." Assim, o poeta costura memórias e fantasmas com a mesma linha: a do espanto. O espanto de quem ama, de quem parte, de quem espera.
Luís escreve como quem se despede devagar, com o cuidado de não acordar o que já doeu: "comecei a esconder-me. fingir leveza. calar o que ardia." Mas também como quem, mesmo no fim, acredita na permanência do que tocou verdadeiramente: "uma vida depois, e ainda sabes tocar-me sem me tocar."
Não espere linearidade. Não espere conforto. Aqui, o tempo não cura: expõe. Cada poema é um fragmento que pede pausa, respiração, entrega. E se, ao virar a última página, sentir que algo em si continua a arder, não se assuste — é apenas o fogo da memória fazendo morada.
Porque, no fundo, como o poeta escreve, "a memória é essa brasa viva, que arde em cada toque lento."