o desejo é a sua própria cinza
Novembro 18, 2025
o desejo não é uma noz para ser partida é a sua própria casca vazia e oca o som surdo de um motor que falha
começa na pele o rumor de uma febre que não aquece é um tremor fino nas extremidades a promessa de uma paisagem que nunca existiu
o desejo é a noite que se fecha sobre nós e nos deixa sem estrelas sem faróis apenas a humidade de um beijo que se perdeu
é a cor da ausência a forma exata do que não temos e que nos rói o miolo do peito como um verme paciente
o corpo é o seu túmulo o lugar onde o desejo se enterra vivo e fica a arder em silêncio uma brasa que não se apaga mas que também não ilumina
somos a combustão lenta desta matéria incandescente que só encontra a paz quando se torna cinza e se mistura com o pó das ruas e o fim dos dias.