Sombras e Fome
Maio 17, 2025
— Ela disse que se fodes aqui à meia-noite... não voltas sozinha.
— E tu, decidiste testar a profecia ou apenas queres ver-me nua entre as árvores?
— Se disser as duas coisas?
— Ah... honestidade. Que pouco comum neste bosque. Já começa a doer.
— Dor é contigo, não comigo.
— Tão selvagem. Tão rápida a despir as palavras. Mas sabias que esta floresta tem fome do toque humano?
— A floresta que espere. Primeiro tocas tu.
— Não sabes o que pedes. Algumas carícias deixam marcas que não cicatrizam.
— Ó filha, tenho cicatrizes que dariam um romance. Anda cá.
— Curiosa... e cega. Sabes o que se esconde por baixo deste chão húmido?
— Minhocas?
— Lamentos. Gemidos fossilizados. Ecos de beijos que nunca terminaram.
— Queres beijar-me ou recitar-me poesia gótica até ao amanhecer?
— Quero ver o momento em que a tua pele arrepia sem saber porquê.
— Já arrepiou.
— Ah. Então já começaram a tocar-te.
— Eles?
— Aquilo que não nomeamos. Não por medo. Por respeito.
— Pareces saída de um livro antigo.
— Talvez eu seja. Talvez esteja a ser lida agora mesmo... por ti.
— Estás a encantar-me.
— Não, amor. Estou a preparar-te.
— Para quê?
— Para o instante exacto em que deixas de ser só tua.
— Que merda é esta no meu tornozelo?
— Um convite. Eles querem-te dentro.
— Tu trouxeste-me aqui para isto?
— Trouxe-te porque és bela. E as coisas belas brilham mais... quando se partem.
— Tu és doente.
— Eu sou eterna.
— Tira as mãos de mim!
— Já não são só as minhas.
— Aaaaah... não... por favor...
— Não peças. Eles adoram pedidos.