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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

Red Tales

>> Cuidemos de Todos Cuidando de Nós <<

 

Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

Mãe - António Ramos Rosa

Janeiro 06, 2021

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.

António Ramos Rosa

DAQUI

Não Posso Adiar o Amor

Dezembro 02, 2020

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

...

Julho 07, 2012

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
... na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso


 


 


ANTÓNIO RAMOS ROSA, in O TEU ROSTO (Pedra Formosa Edições, 1994), in ANTOLOGIA POÉTICA , Selecção, Prefácio e Bibliografia de ANA PAULA COUTINHO MENDES (Pub. Dom Quixote, 2001)

Poema de um funcionário cansado

Maio 23, 2012

A noite trocou-me os sonhos e as mãos


dispersou-me os amigos


tenho o coração confundido e a rua é estreita


estreita em cada passo


as casas engolem-nos


sumimo-nos


estou num quarto só num quarto só


com os sonhos trocados


com toda a vida às avessas a arder num quarto só


Sou um funcionário apagado


um funcionário triste


a minha alma não acompanha a minha mão


Débito e Crédito Débito e Crédito


a minha alma não dança com os números


tento escondê-la envergonhado


o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do
quintal em frente


e debitou-me na minha conta de empregado


Sou um funcionário cansado dum dia exemplar


Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu
dever?


Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu
cansaço


Soletro velhas palavras generosas


Flor rapariga amigo menino


irmão beijo namorada


mãe estrela música


São as palavras cruzadas do meu sonho


palavras soterradas na prisão da minha vida


isto todas as noites do mundo numa só noite
comprida


num quarto só.
                       António Ramos Rosa

LATE NIGHT SECRETS

Março 08, 2010

Penso nisto muitas vezes.


 


António Ramos Rosa,
Deambulações Oblíquas, Quetzal Editores

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um útero do nada?
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?

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