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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

Red Tales

>> Cuidemos de Todos Cuidando de Nós <<

 

Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

5

Janeiro 27, 2023

suspeito que estes jantares de solidão potenciam noites como a de ontem. mais valia ter ficado sozinho em casa que sozinho aqui no meio desta gente toda. o silêncio aqui é mais sombrio. tantas palavras gastas inutilmente. aqui o silêncio é o rumor do nada e as palavras são o silêncio.

4

Janeiro 22, 2023

tu não consegues ver, mas atrás de ti até o céu se enrola, arde e comprime. normalmente manto enorme, transforma-se em chama brilhante e condensada atrás de ti. nuvens como cornucópias. brancas, abraçam a chama. não sei se é o céu ou se és tu a fogueira.

as noites estão mais frias – vai-me valendo a memória e o calor que pressinto.

3

Janeiro 20, 2023

cidade, mas também as únicas palavras que me dançam dentro. palavras com boca. palavras nuas. por vezes, palavras impenetráveis. outras vezes, palavras de claridade ou água. sempre de carne. quando estou na barrenta fronteira para o silêncio, é a tua voz de vidro a manter-me na superfície e a restaurar a alegria. são rumores terrenos de calor cósmico. pontes. oiço-as e é como se descobrisse o mar. é como se descobrisse o encanto do mundo. é como se viessem de um paraíso distante, uma onda as elevasse e se espraiassem no meu corpo.

2

Agosto 01, 2022

és linda. desconfio que nem sabes o quanto. amo os corredores que abres no meu corpo e os rios de cristal que te correm entre os lábios – que te navegam entre os lábios como navios leves. o teu fulgurante sorriso é uma cidade acordada. acesa. uma cidade que flutua na tua voz. uma cidade de desejo com telhados de furor e ruas abertas entre a tranquilidade e o vermelho. uma cidade que, em cada janela, tem uma mulher que canta e bebe mel entre cada estrofe, onde, em cada janela, há uma manta estendida a indicar que é aquela a morada do sol. uma cidade com dez fábricas de ternura.

1

Junho 30, 2022

pressinto em ti o sabor cintilante, talvez porque a tua boca me lembre o vigor do fogo ou nos teus olhos habite o fulgor magnético de um sorriso.

já é noite.

instalas-te como se aqui estivesses, como se as tuas mãos mornas me tocassem na memória. descobrem os motivos do amor. fogem. deixam o lume.

pressinto a tua respiração e a tua nudez. pressinto a brandura das pérolas.

pressinto o doce e ávido enleio dos caules. o ritmado interromper do silêncio noturno pela carne e a explosão das lágrimas.

adivinho a ternura e o arrepio.

Solidão

Dezembro 17, 2021

faltam-me as palavras para descrever o peso de alguns silêncios. para explicar o aperto invisível do ar no meu corpo. 

o infinito cresce sem regras e sobra sempre tanto. só a recordação sabe sorrir. mesmo ela desvanece e vai acabar por me abandonar ao vazio. se, primeiro, não me levar aos jardins de fogo onde reinam as sombras. 

Nick Cave. lentamente. é isso. no ar, como se os acordes fossem amantes. como se estivessem despidos. a solidão é um paradoxo. uma grande folha em branco e nunca estamos sós em frente a uma.

 

tínhamos procurado...

Janeiro 13, 2021

tínhamos procurado o refúgio noturno da praia. fabricávamos o azul. as minhas mãos alternavam entre as cerejas e o muito húmido mar. estávamos tão juntos. entre nós só cabiam a ternura noturna e o azul. e o vermelho. a confusão dos corpos e o ardor do mar. por vezes, o rumor ou a explosão.

a noite estava plena de lua, os seus braços estendiam-se até ao teu rosto e acariciavam-no, abrilhantando-o com reflexos de prata. o teu rosto sob a lua. fulgurante. claro.

as mãos e as vertigens.

a pele.

lembras-te de como as tuas mãos derramavam desejo?

lembras-te de como as tuas mãos derramavam desejo?

sentia-me mais bonito nas tuas mãos. ainda sinto. máquinas do tempo. viajavam-me nas costas imitando uma fera enjaulada, repetindo incansavelmente o percurso entre cada ombro. só o calor do teu corpo tornava real o momento. tudo o resto me parecia sonho: as cerejas no teu corpo; as estrelas refletidas no teu sorriso; as serpentinas azuis; a textura das tuas pernas.

pensávamos ser ilha.

as ondas marcavam o ritmo do corpo. o ritmo do nosso amor. os teus lábios despertavam arrepios em partes que eu não sabia ter. eu mordia, chupava e saboreava as cerejas. segurava-te os braços contra a areia. forçava-te a unir as mãos sobre a cabeça e mantinha-as algemadas com o meu desejo. naquela posição, quando arqueavas de prazer, os teus seios quase rasgavam a camisa e erguiam-se para a noite como que implorando ar.

Solidão

Janeiro 11, 2021

o vinilo gasto dos clássicos já não toca na velha aparelhagem da sala. já não há ninguém aos saltinhos pela casa. nem gritos. já ninguém escorrega no saco de laranjas, a fazer rir os restantes. já não há o único bolo de chocolate possível de fazer. o pequeno quarto, forrado a páginas de revistas, também já não existe. já ninguém tira fotografias. não há ninguém a chorar num qualquer canto. tudo o que existe são paredes distorcidas pela humidade do tempo.

espelhos

Janeiro 11, 2021

Por vezes, deito-me de lado na cama, acendo um cigarro e fico a olhar o meu corpo refletido nos espelhos do roupeiro. Três portas e três espelhos que dividem o meu corpo. São acastanhados e fazem-me mais moreno. Gosto de me olhar nestes espelhos porque me fazem mais moreno e porque escondem os defeitos conquistados pelo tempo. Especialmente por isso. O meu reflexo tem mais cabelo, tem menos barriga, mas, e acima de tudo, não tem recordações. Na porta mais distante, as minhas pernas, sem sinais de fraqueza, confiantes, virgens. Não se notam nem as cicatrizes de distâncias mal calculadas, nem as provocadas pela infinita procura de um sem nome que nunca se acha. A porta do meio está normalmente aberta, para não refletir o meu tronco. É o reflexo mais verdadeiro, mais marcado, não gosto dele e não quero falar mais sobre isso. Na porta mais próxima reflete-se a maior mentira. A face, o braço que a segura, a cabeça e os ombros. Naquele que não sou, não consegue ver-se o que sou. Na minha face sem memórias não se vislumbra medo e, no reflexo dos meus olhos, o tempo está ausente. Não existem árvores, nem sol, nem mar, mas também não se refletem as espessas camadas de sombras noturnas, também não se refletem os bolores verdes e densos e a saliva de sangue no hálito da minha alma. Com a ajuda do cigarro, nem os pingos de irredutíveis cristais que me vidram os olhos, o meu companheiro, o espelho, consegue refletir.

Solidão

Janeiro 09, 2021

a melodia de um rio gelado que nos atravessa o peito, uns olhos que se fecham e o calor de um dedo em círculos leves sobre a face, o bater do coração nas pálpebras que encerram um mar escondido e a luz, interrompida a espaços pela voz distante que canta numa língua estrangeira, suficientemente fraca para iluminar apenas o medo de perder para a minha loucura. é tarde, mas aumento o volume da música até sentir cada nota nas veias, a minha pele treme a cada batida profunda e lenta de percussão, os violinos, a preencher o tempo que sobra (sobra sempre tanto o tempo que falta), uma pausa, para afundar como facas os dedos no corpo, e, novamente, uma voz olímpica, a arrancar-me as lágrimas pelos microscópicos espaços entre a dor e o desejo. depois palavras, cantadas em forma de sussurro, palavras que não compreendo, palavras que ferem o que resta de um corpo adormecido pelo coro vazio da existência. está frio, mas a roupa impede a harmonia entre a pele e o que sinto, rasgo-a, tiras de pano, incendiadas pela fúria, caiem suaves sobre a cera do chão, com elas, e com o início da marcha sonolenta das teclas de um piano, cai também a força que me resta, cai também o espírito e secam-se as lágrimas. sento-me a um canto para lentamente contar os objetos que me rodeiam, chegam-me as duas mãos e volta a sobrar tempo e voltam as cordas a preenchê-lo. a sensação aterradora de câmara lenta, os lentos movimentos que a acompanham, a velocidade a que se sucede o nada, o nada que me prende nesta cela húmida de medos. poderia ter-me deitado mais cedo, mas há algo nesta solidão que me fascina e destrói, tenho primeiro de me perder nestes caminhos cruéis que desenhei e desconheço. o som é desordenado e a melodia desaparece, enrolo a nudez nessa pauta enlouquecida e cravo nas pernas as unhas em feridas fundas e sangram as marcas e sangram os sonhos e grito a dor no corpo para que se esqueça de doer a dor na alma.

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