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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

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Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

um rugido incendiário feito de trapos e balas perdidas

Agosto 02, 2004

eram já quase um poema as flores, o amor e a saudade, quando um rugido incendiário, feito de trapos e balas perdidas, partiu da súbita compreensão e avançou, como um relâmpago, contra as palavras tão bem colocadas do poeta. o mar recolheu às cavernas dos poderosos, o sol brilhou para intensificar as sombras e um tridente, vermelho como para o poeta só as papoilas sabiam ser, trespassou-lhe o peito e o coração de vidro. ensanguentado, com frémitos ácidos a queimarem-lhe os dedos, adivinhou as trevas a lamberem as feridas e assustou-se com o gargantear da morte à sua volta. ter-se-á enfurecido, ou talvez compreendido por breves momentos, e, por isso, pegou numa acendalha de vergonha, juntou-lhe um curto rastilho de perdão e incendiou toda a sua obra.

dois dias depois, já as cinzas se espalhavam pelo ar como nuvens de insectos, descobriram o poeta pendurado numa corda de gritos. com o pescoço partido pela revolta e as pernas queimadas pelo desespero, com as mãos atadas pelo medo e a boca febril cheia de areia e fragmentos de poesia, estava já muito morto o pobre poeta. da sua obra, salvou-se apenas o último poema. escrito com uma pena alimentada pelo seu próprio sangue, era um poema sem métrica e sem amor, um poema sem regras e sem cores, um poema de últimas palavras que ainda hoje ardem no papel e queimam os lábios de quem as beija. um poema cheio de fome e valas comuns, feito de palavras que cegam quem as lê e ensurdecem quem as ouve. o poeta está morto, mas o poema continua vivo e não para de sangrar.

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